quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Verdade e ética

Matéria publicada na edição 304, no dia 21-08-2009 Folha de Blumenau
Luiz Eduardo Caminha médico
Quando fiz pós-graduação na Alemanha, um amigo brasileiro, neurocirurgião, que se especializava também no País me contou que seu mestre resolveu fazer um jantar para colegas da especialidade. A intenção: aproximá-lo da nata da neurocirurgia alemã, uma das melhores do mundo. Uma honra para meu amigo. Trinta dias se passaram e não se tocou mais no assunto. Na Alemanha, a discrição é uma virtude. Assim, nem ousou perguntar a respeito. Já havia esquecido quando o Correio trouxe o convite. O jantar seria dali a três semanas, um sábado, na mesma época que uns parentes do Brasil vinham visitá-lo. Quando chegasse a hora daria um jeito de atender os dois compromissos. Mas brasileiro é brasileiro e sábado, na Alemanha, é igual a todo o mundo. Dia de sair, jantar fora, ir ao bar com amigos, celebrar a vida. O dia chegou e ele esqueceu. Acompanhou os parentes, abusou um pouco, passou da hora e o jantar dançou.Na segunda-feira, o mestre cobrou a desfeita. Como se faz no Brasil, mentiu dizendo não ter sido avisado da data. Mesmo que o mestre insistisse no envio do convite pelo correio, continuou mentindo.Dias depois um policial bateu à porta convocando-o para uma audiência. Motivo: uma queixa contra o Correio. O inquérito apurava se o carteiro - que afirmava ter entregue a correspondência - estava ou não mentindo. Mentir, na Alemanha, como em qualquer lugar do mundo, exceto o Brasil, é grave. Gravíssimo se vier de um agente público. Envergonhado, foi à delegacia e contou a verdade. A desculpa: no Brasil isto é normal. Levou uma descompostura e uma ameaça de processo caso reincidisse.Agora pasmem. Se pego por mentir, um processo seria aberto para punir o carteiro com a perda do emprego. Mais, o juiz estabeleceria uma indenização por danos morais, paga pelo Estado às vítimas. Correio é um serviço público e deve cumprir as obrigações com a sociedade. Ademais, lá, mentir é antiético.Aqui, se bobear, meu amigo e o mestre seriam processados por danos à imagem dos Correios. O agente público, impune, seria digno de pena; a verdade considerada coisa de encrenqueiro e a mentira um artifício da oposição e da imprensa golpista. É só ver o exemplo de alguns funcionários públicos e dos políticos em Brasília. Mentir aqui é a praxe. Dizer a verdade é ser inconveniente. Tudo acabaria em pizza!
Fonte: AMARRIBO

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